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Ernani Pires Ferreira - A Voz do Jockey Club
2/2/2007 - 19:35:25



O par de óculos pende sobre o nariz, mas o olhar não perde o foco. Do alto da cabine de locução e dos seus 40 anos de profissão, o locutor oficial do Jockey Club Ernani Pires Ferreira, 68, se posiciona atrás de um binóculo de ponte de comando de navio. Na mão esquerda, um pequeno calo entre o polegar e o indicador, bem onde resvala o maquinário. O dedão, por sua vez, desgastou a pintura do objeto ao longo dos anos.

Na pista de grama, os cavalos se alinham para correr o prêmio Coronel Fabriciano. Ernani lê a relação dos animais inscritos no 4o páreo da noite. Repete com sotaque carioca carregado o nome do cavalo Now for Me, que carrega o número 4 na manta. Sua voz poderosa ecoa pelo camarote enquanto decora os outros cavalos do páreo: “Orrrso Bianco, número três, é seguido de Xara´s Alado, cinco. Xarazalado, xarazalado núúúmero cinco”.

Em menos de cinco minutos, Ernani tem os oito cavalos da pista na ponta da língua. “Uso o processo mnemônico (de repetição) para memorizar os competidores”, confidencia, “pela cor da blusa do jóquei ou pelo nome do cavalo, associo com algo de que me lembre na hora da corrida”.

Ernani é um senhor (que odeia ser chamado de senhor) de não mais de 1,61m, calmo, bem humorado, de fala mansa, mas potente. Vindo de Pernambuco para o Rio de Janeiro com o pai, seu Ari, o locutor pisou pela primeira vez no Jockey aos seis anos. “Meu pai era criador e proprietário, sempre tivemos uma paixão por cavalos”.

Esta paixão ganhou voz quando Ernani começou na profissão, em 1966, substituindo Theófilo de Vasconcellos, seu grande incentivador e criador de expressões como “foi dada a partida” e “cruza a faixa final”, ainda presentes no turfe nos dias de hoje. O jovem Ernani, contudo, trazia um estilo próprio e ritmo acelerado de narrar as corridas. Entrou para o Guiness Book, o livro dos recordes, por falar 351,6 palavras em um minuto, no dia 17 de julho de 1983, tirando o título do ex-presidente norte-americano John F. Kennedy.

A voz que chega aos ceús da Gávea pelos alto-falantes espalhados no Hipódromo, apronta outro vôo: “Vou registrar o recorde de 70 mil páreos narrados. Isso não é pouco não, hein?”, diz com um sorriso no canto da boca. Além do Rio, Ernani narrou corridas como enviado especial na Inglaterra, França, Argentina e Uruguai.

Ernani destaca Luiz Rigoni como melhor jóquei de todos os tempos

Dentre essas dezenas de milhares de páreos, Ernani presenciou a emoção da chegada dos melhores cavalos. Itajara, Farwell, Escorial, Emerald Hill, Adil, Gualicho estão na lista que prefere escrever ele mesmo para que o repórter não se engane na ortografia. Entre os jóqueis, destaca os chilenos F.Irigoyen, E.Castillo, O.Ulloa entre os melhores, além do uruguaio Irineo Leguisamo. Radicado na Argentina, Irineo montou até os 62 anos e era amigo íntimo do cantor argentino Carlos Gardel, que gravou um tango, Leguisamo Solo, em sua homenagem. Mas, em sua serenidade, definiu aquele que não tem rival: “O brasileiro Luiz Rigoni, falecido recentemente, foi sem dúvida o melhor de todos os tempos. Era inigualável”.

Há apenas sete meses na Escola de Aprendizes do Hipódromo, Walber Alencar Braz, 19, mas com 56 vitórias no currículo, sobe à cabine para ouvir conselhos de Ernani. Ainda com as botas sujas do páreo anterior, conta que o locutor costuma visitar as cocheiras para conversar com treinadores, veterinários e jóqueis. Antes de Walber montar o próximo páreo, Ernani põe a mão no ombro do jovem.

-Engraxe suas botas e faça a barba. Um jóquei que se preza tem que estar sempre apresentável.

-Pode deixar seu Ernani, não esqueço de ser humilde – responde.

-Que humilde que nada. Seja simples, mas seja altivo!

Ernani disputou 26 páreos como jóquei amador, dos quais venceu 14. Com uma passagem de 15 anos pelo Globo Esporte, ele participa do programa esportivo Mesa Redonda de José Carlos Araújo, o Garotinho, que vai ao ar na CNT todos os domingos, às 21h. E ainda tem tempo para fazer natação ao menos cinco vezes por semana.

O cuidado com o corpo começa pela garganta. A entrevista consome mais de dez de copos. “Os fonoaudiólogos sugeriram beber muita água para umidificar as cordas vocais”, explica. Confessa que não usa celular, evita sussurrar, comer chocolate e ficar no ar condicionado.

Tão dedicado à leitura quanto à corrida de cavalos, Ernani lançou em 2001 o livro Guardanapo de Papel, sobre a boemia carioca. O locutor está lendo quatro livros, um deles chamado Os Instrumentos, sobre música.

Para Ernani é preciso encher novamente as arquibancadas do Hipódromo. Ele relembra uma época em que os fãs de esporte dividiam suas atenções entre o Maracanã e o Jockey Club. De seu principal instrumento de trabalho, o imenso binóculo de navio, acompanha a disputa do 4o páreo, vencido por Xara´s Alado. Ernani recosta na cadeira para começar tudo de novo no próximo páreo, marcado para daqui a 30 minutos.

por Fred Raposo - Fotos: Eduardo Alves
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