Turfe Brasileiro, de 1900 a perto de 1930 (Milton Lodi) » Jockey Club Brasileiro - Turfe

Turfe Brasileiro, de 1900 a perto de 1930 (Milton Lodi)

    As melhores, as mais férteis, as adequadas para a criação de cavalos na América do Sul, do lado do Oceano Atlântico, são as terras que ficam abaixo da cidade de Porto Alegre, no Brasil, estendendo-se sempre em direção ao Sul, passando pelo Uruguai e invadindo a Argentina. Constitui-se na chamada Pampa Passarias Fartas, com misturas de variedades de capim, e que alimentam os cavalos sem a necessidade de artifícios farmacológicos. Quanto mais longe de Porte Alegre, melhor, sempre em direção ao Sul. Os criadores gaúchos criavam por amor ao esporte, e saber-se das importações da Europa, naturalmente em princípio da Inglaterra, visando melhorar o padrão dos plantéis gaúchos, a rigor composto por éguas argentinas e uruguaias que, nos tempos idos, produziam a maior parte da produção nacional.

Em 1911, o grande benemérito do turfe brasileiro, Linneo de Paula Machado, importou pioneiramente dos Estados Unidos o garanhão Novelty, marcando o início de uma nova era na criação brasileira. O grande benemérito, proprietário de muitas terras no Estado de São Paulo, montou no Município de Rio Claro um haras de nome São José, à base de importantes importações principalmente da França, tendo sido formasterusFormasterus-FOTO, um filho de Asterus e Formose, um primeiro marco no início de um desenvolvimento da criação brasileira. Mas o grande benemérito já tinha antes uma imensa área de terras no Município paulista de Botucatu, com até estrada de ferro que atravessava a enorme propriedade, que contava com áreas nativas, protegidas, com uma fauna exuberante, com grandes áreas de plantio. Naquela propriedade de Botucatu, o grande benemérito já iniciava a sua famosa criação de cavalos de corrida, com o nome de Haras Expedictus-FOTO.sjose expedic

Os grandes investimentos de Linneo na área do turfe, chegaram ao ponto da implantação de dois grandes hipódromos, o de Cidade Jardim em São Paulo, e o da Gávea no Rio de Janeiro. Nas duas citadas cidades já havia corridas oficias, em São Paulo no hipódromo da Mooca com pista de volta fechada da ordem de 1.200 metros, enquanto que no Rio de Janeiro havia duas entidades, também de pequeno porte, que intercalavam os seus programas de corridas. Estamos falando dos anos de 1900 a antes de 1930. No Rio Grande do Sul concorriam em busca de sucesso as famosas pencas, páreos curtos entre 400 e 700 metros, de um modo disputados por potros de 2 anos. O hipódromo principal do Estado, com volta fechada não maior que 1.600 metros, eram o Moinhos de Ventos, na época a grande atração do turfe gaúcho.

No Paraná, que também acompanhou a evolução do turfe brasileiro, o hipódromo chamava-se Guabirotuba, que também enfrentava a concorrência de pencas pelo interior do Estado. Esse era o panorama brasileiro, dos primórdios até antes de 1930.

Em termos de qualidade o turfe Argentino era bem superior, pois lá sempre houve uma aristocracia rural, que, enquanto as ricas paisagens engordavam o gado e bem criavam os cavalos de corrida, os ricos donos de haras passavam longas temporadas na Europa, aprendendo com os ingleses e os franceses as complexas artes da criação de cavalos de corridas. Dessas viagens naturalmente decorreram as vindas de muitas éguas e muitos cavalos, sendo que a Argentina chegou a importar da Inglaterra vários ganhadores do Derby de Epsom. Como resultado, a Argentina liderou por muitos anos a criação e as corridas na América do Sul, e era grande abastecedora de animais para o Uruguai e para o Brasil.

Enquanto isso, do outro lado do continente, o Chile dominava, com as suas ricas pastagens sendo alimentadas pelos húmus da Cordilheira dos Andes, que se por um lado tinha até geleiras eternas em seus pontos mais altos nos meses de inverno, nos meses de calor o gelo das partes inferiores das montanhas se liquefazia, e escorria pelas áreas próximas com riquíssimas fontes de adubação natural que desciam com o gelo derretido e encharcavam, o que acontece até hoje, nas pastagens de muitos haras. O gelo derretido desce das montanhas de cor turva, cinzenta clara digamos assim, trazendo os nutrientes naturais necessários a periodicamente revitalizar as pastarias. A criação chilena é privilegiada pela natureza. De alguns anos pra cá ela, que como o Uruguai vivia atrelada ao sucesso argentino, acordou em tempo de importações de bons ganhadores europeus alguns comprados e outros trazidos anualmente em “shuttle”.

Com o Brasil já tendo acordado há muitos anos, com o Chile também esclarecido, e o Uruguai acordando há pouco tempo para a realidade, a Argentina sofreu uma diminuição em seus tradicionais clientes, isso ainda agravado pelo declínio da criação norte-americana, da qual a Argentina foi dependente por dezenas de anos, declínio esse em função da excessiva permissibilidade do uso de drogas. Mas voltando ao Brasil, nessa supérflua análise, no final nos anos 20 o JCSP inaugurou o seu Hipódromo de Cidade Jardim, o JCB o da Gávea, o JCRGS o Cristal com suas escadas rolantes, e o Paraná o Hipódromo do Tarumã. Foi o término de uma fase e o início de outra.

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