Internacionalização de sangues, entre os dois hemisférios (Milton Lodi) » Jockey Club Brasileiro -

Internacionalização de sangues, entre os dois hemisférios (Milton Lodi)

Internacionalização de sangues, entre os dois hemisférios (Milton Lodi)                

 

               Outro dia, recentemente, recebi prazerosamente um telefonema do amigo uruguaio, já radicado no Brasil há cerca de 40 anos, Carlos Henrique Penco, que estava em companhia do maior expert do turfe uruguaio, quiçá da América do Sul, Luiz Costa Baleta, o homem que implantou modernidades no Stud Book Uruguaio e que, além de uma cultura turfística internacional incomum, todo o ano frequenta as grandes provas do turfe civilizado, o europeu. A conversa é sempre educativa e plena de notícias, curiosidades e muito agradável. Esse telefonema trouxe-me a lembrança do respeito que grandes criadores tinham e ainda tem com o turfe do Uruguai. Os grandes criadores brasileiros José Paulino Nogueira (Haras Bela Esperança) e os irmãos Roberto e Nelson Grimaldi Seabra (Haras Guanabara) aprenderam a técnica criacional com Don Juan Amoroso, do Haras Casupá, que era cognominado de Tesio Sul-Americano. Basicamente e em poucas linhas, o entendimento pedigristico base era a internacionalização dos sangues, especificamente garanhões ingleses e/ou franceses, que era o que havia de melhor mundialmente à época, em éguas uruguaias, argentinas ou brasileiras. A qualidade individual era muito importante, mas naturalmente os altos custos representavam um cerceamento às intenções.

emersonPOSTSó como um exemplo superior dessa linha, pode-se citar o cavalo Emerson-foto, criação e propriedade dos irmãos Seabra, que deram ao espetacular garanhão francês Coaraze, estacionado no Posto de Monta do Jockey Club de São Paulo, em Campinas, a égua argentina Empeñosa, recorde de preço nos leilões de produtos da nova geração, em Buenos Aires, e uma filha do inglês Full Sail égua argentina filha de Congreve, esse um chefe de raça na Argentina. Empeñosa como corredora foi um fenômeno nas pistas argentinas e também nas brasileiras. Tendo fraturado um pé quando em trabalho na Gávea, seguiu brilhando fulgurantemente, sendo Emerson invicto em suas corridas, das quais 3 Derbies (o paulista, o carioca e o sul-americano). Exportado para a reprodução na França, lá também foi um sucesso. Funcionou muito bem a cruza do francês Coaraze, um grande ganhador clássico filho de Tourbillon, na poderosa argentina Empeñosa, que entre outros bons filhos também produziu Emotion, que tinha como pai o italiano Orsenigo, que foi dentre outras provas importantes ganhadora do Diana. José Paulino Nogueira tinha menor poder financeiro que os irmãos Seabra, e como grande e permanente estudioso de pedigrees, trouxe Seventh Wonder e Tintoretto para a reprodução no Bela Esperança. Os dois foram excelentes garanhões. Só para lembrar, entre os seus muitos filhos grandes garanhões clássicos, Seventh Wonder, um Pharos, produziu Jocosa, líder de turma e ganhadora do Grande Premio São Paulo, e de muitos outros ganhadores clássicos, dentre eles Hamdam, líder de turma. Tintoretto era um filho de Solario e entre os seus inúmeros filhos clássicos, foi o pai da famosa Garbosa Bruleur. Hamdam (Seventh Wonder) tinha linha feminina uruguaia, e Jocosa (Seventh Wonder) tinha linha francesa e que tinha como próximo avô Ksar, líder de turma na França e pai do notável Tourbillon. Tintoretto e Seventh Wonder, sempre utilizados em linhas uruguaias, argentinas e brasileiras, fizeram enorme sucesso. A diferença fundamental entre os animais usados pelo Haras Guanabara e pelo Bela Esperança estava em que o Guanabara se utilizava de garanhões já aprovados (Coaraze, Hunter´s Moon, Orsenigo, etc.), e o Bela Esperança de corredores de especiais pedigrees e que tinham tido campanha muito curta, em função de fatores inesperados, como manqueiras, acidentes, etc, que aconteceram quando eram então boas promessas.

                 O telefonema dos dois amigos uruguaios me fez lembrar de dois filhos de Stayer, Lunar e Latero, líderes no Uruguai e que foram importantes para o Brasil. Lunar, nas pistas uruguaias, era o melhor, um tordilho bem claro, grande, de galope compassado, ótimo em provas superiores a 2.400 metros. O irmão Latero, no Brasil, mostrou-se melhor corredor em função de sua melhor aceleração. Lunar veio para José Paulino Nogueira (Haras Bela Esperança, faixa laranja, cruz de Santo André e boné verde), e Latero para Jayme Muniz de Aragão (salmon, boné azul e borla ouro). Com o correr do tempo o turfe uruguaio foi se submetendo ao turfe argentino, e por ele foi sufocado, e só agora, na recente realidade, o turfe uruguaio está se revigorando.

                 O agradável telefonema trouxe-me ótima recordações. Em relação ao turfe uruguaio, vou voltar eventualmente a contar uma história verídica e curiosa, que anteriormente já contei.

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