Turfe, uma Vida de Paixão: Alex Mota » Jockey Club Brasileiro - Turfe

Turfe, uma Vida de Paixão: Alex Mota

No final da década de 80, um cavalo tordilho de criação e propriedade do Haras Santa Ana do Rio Grande fazia sucesso nas pistas do Hipódromo da Gávea. O que poucos sabem, é que esse mesmo animal, chamou a atenção de um menino de 11 anos lá no interior do Rio Grande do Sul. O menino, chamado Alex, viu chegar em suas mãos uma revista do JCB onde na capa, a foto estampada era do craque Bowling montado pelo genial Juvenal Machado da Silva. A partir daquele momento, Alex, que desejava ser jogador de futebol, decidiu que era aquilo ali que ele queria fazer. Montar cavalos de corrida.
Oriundo de uma família que sempre foi ligada aos cavalos, trocar a bola pelo chicote, não foi uma tarefa tão complicada. 
 
“Minha família sempre foi ligada aos cavalos, com tradição nas retas. Meu pai no início era contra, pois achava a profissão de jóquei muito arriscada, mas eu e alguns amigos conseguimos convencê-lo de que era montar cavalos que eu queria para minha vida. Montei nas retas pelo interior do Rio Grande do Sul, aos catorze anos tentei ir para o prado e meu pai não deixou. Logo em seguida, com quinze anos, consegui finalmente a autorização dele para que pudesse ir montar nos prados. Quando eu estava prestes a completar dezoito anos, já montando no Cristal, eu estava ganhando bastante corridas, e aí surgiu um convite para que eu viesse ao Rio de Janeiro para entrar na escolinha de aprendizes aqui na Gávea”
 
Alex, que assistia sempre pela TV as corridas na Gávea e em Cidade Jardim, já se sentia realizado em montar no Cristal. Ir para o Rio de Janeiro era um desafio e tanto. 
 
“Sair de perto dos meus pais para encarar sozinho uma outra realidade, estando a 2.000 quilômetros de casa, não foi fácil. Fui muito bem recebido por aqui, mas sentia falta de casa. Comecei a montar na Gávea como aprendiz de quarta categoria, mas como eu já montava antes no Cristal, levei vantagem em cima dos demais meninos e isso fez com que muitas pessoas achassem que eu era `gato´. Eu cumpria todos os requisitos para aprendiz, porém de fato, já tinha um pouco mais de experiência. Em quatro meses, além de ter tido problemas com peso (ultrapassou o limite de peso estabelecido para os aprendizes), fui desligado da EPT e passado a profissional.” 
 
Alex destaca que essa passagem acaba sendo um pouco traumática para os meninos e que o apoio de treinadores e proprietários acaba sendo fundamental nessa transição. A perda do benefício da descarga de peso que os aprendizes têm em relação aos profissionais, acarreta na maioria das vezes em uma diminuição no número de montarias e, consequentemente, no número de vitórias. Alguns, sem esse apoio e com o agravante de estarem longe da família, acabam ficando pelo meio do caminho. 
 
Considerado por muitos, um ótimo piloto, Alex diz que sua trajetória no turfe é marcada por altos e baixos, mas que todas as vezes que não estava em um bom momento, contou com a confiança e a força de poucos, mas verdadeiros amigos que o turfe lhe apresentou. Por conta de problemas pessoais, aliados a uma eterna e sofrida briga com a balança, o fizeram interromper a carreira por duas vezes, em uma delas estava decidido a nunca mais voltar a montar, porém, foi vencido pela insistência dos amigos que torciam para ver Mota novamente em ação. 
 
“Quando eu penso no início da minha carreira até os dias de hoje, eu digo que sempre estive em uma montanha-russa. Às vezes lá em cima, às vezes lá embaixo… Graças ao nosso bom Deus, sempre que estive embaixo, consegui subir novamente. A maioria das pessoas só enxergam as coisas boas, mas temos muitas dificuldades também. Eu sempre tive muito problema com o peso e quando juntava isso a algumas questões pessoais, eu acabava parando de montar. Na última vez que interrompi a carreira, na minha cabeça eu nunca mais voltaria a montar. Estava decidido. Fui embora para a minha cidade, Rio Grande, fui fazer outras coisas, fiquei três anos fora… mas não larguei os cavalos, eu ia para as retas e incomodava os caras de lá! (risos). Nesse meio tempo, as pessoas também me ligavam para saber como eu estava e insistiam para eu voltar. Para resumir, montar cavalos é o que eu amo, é o que sei fazer melhor, e acabei me dando uma outra chance. Eu amo animais, mas o cavalo de corrida para mim é o melhor, tá no meu sangue. É a minha cachaça! Eu não queria passar novamente por tudo o que eu já tinha passado, não queria passar pelo sofrimento de perder e manter o peso, mas eu precisava dar mais uma chance para a minha carreira, não podia jogar ela pro alto assim.”

Sorte a nossa!
 
A balança é a inimiga número 1 dos jóqueis, mas Alex, com a maturidade adquirida ao longo da vida, faz um mea-culpa nessa batalha interminável:
 
“O maior fator que me fez interromper a carreira foi sim o peso, mas hoje eu tenho a consciência de que deveria ter me privado mais de algumas coisas. Ser jóquei é ser um atleta. Um atleta bem sucedido precisa levar uma vida de atleta. Eu nunca tive uma vida regradinha, não dormia cedo, não gostava de me privar de comer… eu era um rato de churrasco nas cocheiras. Eu não sou franzino e o jeito que levei a vida, me atrapalhou bastante. Para você ter uma ideia, quando parei de montar, cheguei a quase noventa quilos. Hoje eu procuro dormir cedo, comer melhor, sei que preciso me privar de algumas coisas. Eu não sou mais garoto, meu corpo mudou, então precisei mudar meus hábitos também, e mesmo assim, é difícil manter o peso.”
 
Embora classifique a carreira como uma montanha-russa, Alex coleciona mais bons momentos do que ruins. Piloto experiente, frio, extremamente técnico e inteligente, é responsável por direções de arrancar aplausos dos mais entusiastas. Vencedor do GP Brasil de 2004 montando Thignon Boy, considera esse momento o ápice de sua jornada. 
 
“Já tive a oportunidade de montar em Dubai, Argentina, Estados Unidos, mas meus melhores momentos foram na Gávea. Vencer o GP Brasil de 2004 foi um sonho realizado… lembrei daquela foto na capa da revista com a vitória do Bowling no Brasil de 87. Foi através daquela imagem que tudo começou. Eu quero ganhar mais corridas importantes, quero ganhar mais um GP Brasil, mas se nada disso acontecer, posso dizer que me realizei como jóquei.”
 
Alex tem sua consciência tranquila ao analisar que os seus erros só prejudicaram a si mesmo, e hoje, se preocupa em passar esses ensinamentos aos mais novos, principalmente a sua filha mais velha, Victoria, hoje joqueta no Hipódromo da Gávea. (Alex tem 4 filhos) 
 
“A Victória foi uma surpresa muito grata. Eu não esperava que ela fosse querer montar profissionalmente, ela sempre levou a vida dela, estudava, tinha outros desejos. De repente ela chegou com essa historia de querer ser joqueta. Nunca fui contra, mas fiz questão de falar tudinho para ela… que é perigoso, é difícil, é um meio machista, que ela iria penar bastante, etc. Mas se ela estava disposta a enfrentar, que o fizesse. Ela queria e eu não iria contrariar. 
 
Hoje eu ajudo dando conselhos e puxões de orelha toda vez que acho necessário… ela já puxou muito a minha orelha, mas hoje eu puxo mais a dela. Quero que ela melhore a cada dia, na vida profissional e na pessoal. Não digo que estou correndo atrás do tempo perdido, mas estive muito ausente então hoje procuro exercer meu papel de pai, estar mais próximo. 
 
Sinto muito orgulho quando a vejo montando, monta de igual para igual com os demais. Falta as pessoas entenderem que a mulher não deve em nada em relação aos homens, se falta um pouco de força em contrapartida tem a sensibilidade, e o cavalo precisa disso também, não é só o rigor.”
 
Orgulhoso e babão, Alex diz que orienta bastante a filha e que ela tem uma noção muito boa de percurso, não é afobada e demonstra muita habilidade em cima de um Puro Sangue Inglês. 
 
“É aquela coisa… meu sangue!” 
 
O Borboleta, apelido que ganhou de Jorge Ricardo porque sempre combinava as cores das fardas com os seus equipamentos de montar (óculos, chicote e botas), hoje é um sujeito mais simples e reservado. Sentado na varanda de casa, entre um gole e outro de café fresquinho, coado na hora, nos confidenciou que pretende seguir montando até os 50 anos, mas tem que ver até onde o corpo irá aguentar e que deseja levar sua vida da melhor maneira possível e não repetir os mesmos deslizes de tempos atrás. Alex é uma pessoa tranquila, que busca sempre recuperar o tempo perdido e aprender com os erros. Tem o simples desejo de ser uma pessoa melhor com o passar dos dias e seguir ganhando suas corridinhas. Ganhar é o combustível para um atleta que tem o espírito de um campeão. 
 
“Seja páreo de claiming ou prova de grupo, vencer é o que me motiva, é o que me faz feliz. Para mim, ganhar uma corrida, justifica todo o esforço que a gente tem. Eu não gosto de perder, mas não significa que eu seja um mal perdedor. Eu me cobro demais, se eu perder um páreo que eu sabia que não poderia perder, são quinze dias para isso sair da minha cabeça. Fico tentando entender onde errei ou o que eu poderia ter feito de diferente.”
 
Antes de encerrar nossa conversa e depois de ter revisitado suas memórias, pergunto o que o Alex de hoje em dia falaria para aquele Alex de 11 anos de idade e cheio de sonhos ainda..
 
“Guri, a vida é boa, mas é dura também. Você vai passar por poucas e boas,então tome cuidado com algumas pessoas que vão cruzar o teu caminho, elas só irão querer se aproveitar dos bons momentos, mas fica tranquilo que você também vai encontrar muita gente boa e que sempre irão te dar as mãos quando precisar. A vida é difícil, fique ligado e procure não fazer besteiras, o tempo não volta. A gente não pode prever o futuro, mas corra atrás dos seus sonhos, um dia você também pode estar na capa da mesma revista que te inspirou.”
 
Texto e fotos: João Cotta
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